O futuro problemático do Chile: bem estar social x desenvolvimento econômico?

   A América do Sul, historicamente, vem sendo marcada por períodos de instabilidade política. Dessa forma, vamos – em aulas – observar com atenção a situação nesse continente, pois os problemas dos nossos vizinhos podem acabar impactando no Brasil.
   A instabilidade política na América do Sul no período pré-pandemia se deve a mudança de seus governos de viés à esquerda para à direita,
onde essa transição de viés político muito se deveu, em parte, ao grande desgaste sofrido pelos líderes e partidos de esquerda que permaneceram muito tempo no poder e que foram envolvidos em casos de corrupção, bem como por políticas equivocadas que prejudicaram a situação econômica dos países, com o intuito de permanecerem no poder, aumentando o desemprego, deteriorando a economia e piorando a qualidade de vida dos cidadãos. Os governos de direita eleitos por meio de políticas de ajuste fiscal, com o intuito de sanear as contas públicas, bem como de recuperar o crescimento econômico (que estavam enfrentando também o problema da queda dos preços das commodities) geraram uma insatisfação em parte de suas populações, no continente já combalido. Neste cenário, tiveram origem os protestos anti-austeridade sul-americanos, com o intuito de reivindicar melhores serviços sociais e melhor distribuição de renda, além de outras pautas. Esses protestos foram potencializados pela desigualdade social (latente no continente) e pela guerra ideológica em alguns países. Podemos exemplificar em eventos ocorridos no Chile, Equador, Peru, Argentina, Colômbia e Uruguai, e cujos protestos atingiram os maiores níveis em 2019. Além disso, outros passaram por turbulências políticas como o Paraguai e o Brasil, e a Venezuela em seu caos diário. Ademais, essa tendência de troca de visões de espectro político (de visão progressista a uma visão conservadora) ocorreu não somente no nosso continente, mas também em outras partes do mundo, pois ao olharmos o cenário internacional, percebemos, também, que houve protestos político-sociais na Europa (os coletes amarelos na França, BREXIT no Reino Unido, Espanha etc), nos países muçulmanos que foram atingidos pela "Primavera Árabe", no Líbano, em Hong Kong, e em outros lugares, mostrando que trata-se de um fenômeno global, desde 2010. Sendo considerado por alguns como a década do "basta" ou a década dos protestos.

   Nos EUA, também, vimos várias manifestações contra o racismo, como o movimento Black Lives Matter, além de demonstrações assertivas da extrema-direita, como os Proud Boys, o que demonstra que a década dos protestos não terminou ainda.

   O entendimento do fenômeno acima, nos ajuda a compreender o que o Chile vem passando, pois apesar de possuir o melhor Índice de Desenvolvimento Humano - IDH da América do Sul, e os índices de pobreza e desigualdade sejam menores comparativamente aos demais países do continente, o país vinha enfrentando uma grande convulsão social, com protestos, por vezes, violentos e com uma repressão do Estado muito forte, o que culminou com uma eleição para o estabelecimento de uma Assembléia Constituinte com o intuito de elaborar uma nova constituição.




   O resultado da eleição ganhou uma marca histórica com os independentes e os partidos de extrema esquerda obtendo a maioria das cadeiras, e com isso ganhando a oportunidade de transformar a constituição chilena, encerrando de uma vez por todas a era Pinochet, além de tirar o protagonismo dos partidos de direita.

   Nesse diapasão são esperadas as seguintes transformações:

·         Modelo econômico do Estado Chileno: com isso existe o temor da mudança da política macroeconômica do país, que vinha garantindo os melhores índices do país no continente, sendo considerado por muitos Estados da América do Sul como um exemplo a ser seguido. Dessa forma, é previsto que sejam inseridos mais direitos fundamentais para a população, similares as constituições brasileira e argentina, ou seja, transformando a carta magna chilena para prover um Estado de bem-estar social, aumentando o papel do Estado;

·         Povos originais: devem ter os seus direitos garantidos, bem como ganhar maior representatividade e protagonismo nos destinos da nação;

·         Igualdade de gênero: em que se espera que será a primeira constituição que seja previsto tal tema.

   Nesse cenário, o Chile será um grande laboratório e que deverá ser acompanhado com atenção, pois poderá ser um Estado progressista de bem-estar social, com o desafio de manter o atual IDH do país, e que, se não obtiver êxito, poderá ser uma experiência fracassada se assemelhando ao que vem ocorrendo na Venezuela ou Argentina, onde os problemas sociais foram acentuados.

   Além do Chile, estamos observando protestos violentos na Colômbia. Assim sendo, alguns pensadores, principalmente de esquerda, advogam que somente por meio de manifestações fortes, por vezes violentas, é que poderão ocorrer as transformações sociais.


Opinião: A pandemia da COVID-19 potencializou os movimentos reivindicatórios sociais, que a década de protestos, iniciada em 2010, ainda está em curso, onde podemos concluir que o modelo de Estado idealizado por Hobbes está em questionamento em algumas partes do mundo, além do neoliberalismo e liberalismo.

   Dessa forma, vemos a América do Sul como um "caldeirão" social, em que a esquerda tem a grande possibilidade de voltar a ser protagonista no continente.

   Nesse sentido, em meu entendimento o grande desafio é como conciliar um Estado protetor e progressista com um alto desenvolvimento econômico e social no nosso continente, pois a corrupção é um câncer latente na América do Sul. É digno de nota que são poucos os países no mundo, que podemos lembrar, que obtiveram sucesso com este modelo.


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