A milícia marítima chinesa e suas frotas pesqueiras
A China em sua disputa
pelo aumento da sua Zona Econômica Exclusiva - ZEE no Mar do Sul da China, bem
como em outras disputas marítimas territoriais com outros países (Mar da China
Oriental), vem empregando, além de sua diplomacia coercitiva utilizando-se do
seu poder econômico e do uso da força por meio da sua Marinha (PLA-Navy) e de
sua Guarda Costeira, a sua milícia marítima conhecida em inglês por People's
Armed Forces Maritime Militia (PAFMM).
O emprego da PAFMM em disputas territoriais marítimas cria um dilema para o Estado que está sendo alvo do seu emprego, pois como não é uma força armada regular a repressão fica, geralmente, ao encargo das forças de segurança (guarda costeira ou polícia marítima) que possuem meios e legislação adequados a esse tipo de tarefa, em que pese a PAFMM estar sendo usada para atingir os propósitos estratégicos da China.
Na figura abaixo podemos ver como a PAFMM está inserida na estrutura de Comando e Controle do poder militar chinês, apesar do governo de Pequim negar a sua existência:
Nesse sentido, a milícia marítima chinesa é reconhecida por muitos
analistas como a terceira força naval chinesa, sendo a PLA-Navy e a Guarda
Costeira as outras duas. É importante mencionar que a criação da PAFMM remonta
a época de Mao Tsé Tung, em que a idealização dessa milícia, após a guerra
civil chinesa, era importante para defender a China de possíveis incursões das
forças nacionalistas à sua costa, pois na aquela época não havia uma marinha
organizada, o que era uma grande vulnerabilidade a sua segurança.
O desafio em conter a PAFMM é que o seu modus operandi é muito
agressivo, possui treinamento militar e armamento, opera em grande número e
sempre de forma coordenada entre si e com a Guarda Costeira da China. Utiliza
embarcações pesqueiras para operar em alto mar, e para tanto possuem cerca de
60 metros e com 750 toneladas de deslocamento.
No link abaixo pode-se ver o treinamento de uma milícia marítima chinesa da região de Sansha, conforme o site The Maritime Executive (https://www.maritime-executive.com/article/chinese-maritime-militia-unit-releases-music-video-of-its-real-duties). Ao assistir o vídeo podemos entender porque alguns comentaristas sobre a China chamam os integrantes da PAFMM como "pequenos homens de azul" ou little blue men: https://www.bilibili.com/video/av242703275/
É digno de nota que as
suas embarcações, em que pese serem pesqueiras, não utilizam os aparatos de
pesca, como as redes de arrasto, o que poderia dificultar a sua mobilidade e as suas ações operacionais, ou seja, não realizam a atividade de pesca.
Dessa forma, intimidam os pescadores do país alvo invadindo as áreas em disputa, e quando começam a sofrer a repressão daquele Estado apelam para a Guarda Costeira chinesa que vem para apoiá-los alegando a necessidade de defender os seus barcos de pesca.
Na
figura abaixo podemos ver o crescimento da PAFMM, o que demonstra a sua
relevância:
A PAFMM possui outras
tarefas como vigilância e apoio as operações navais em situações de conflito.
Tem sido observado que outros países do Indo-Pacífico, como o Vietnã e as Filipinas, começam a adotar o uso de milícias marítimas como reação a PAFMM, e que caso alcancem um bom desempenho poderá ser um modelo a ser replicado no mundo, o que vem ratificando o incremento do uso de proxies que operam a favor dos objetivos político-estratégicos dos Estados, tal observação foi tratado no Blog em seus artigos sobre Guerra do Futuro, Guerra Híbrida e Gray Zone.
Opinião: devemos acompanhar com atenção o emprego da PAFMM em disputas territoriais fora da região do Indo-Pacífico, pois poderá revelar uma tendência do seu emprego em regiões mais afastadas como a África Ocidental, que fica no nosso Entorno Estratégico, e que no futuro poderá estar operando nas proximidades da nossa ZEE junto com as Dark Fleets. Além disso, a disseminação de milicias marítimas atuando como proxies é outro fenômeno a ser acompanhado, visando nos prepararmos adequadamente para operar nesse cenário.


Comentários
Postar um comentário