A crise paquistanesa permanente e as suas consequências geopolíticas
Desde o início de abril deste ano, o
Paquistão vem enfrentando uma crise política interna de grandes proporções, em
que o Primeiro-Ministro, eleito em 2018, Imran Khan perdeu as condições
políticas para governar o país, pois teve uma moção de perda de confiança
aprovada, sendo a primeira vez que isso acontece com um governante paquistanês. Assim, o parlamento paquistanês colocou duas opções para Khan: renunciar ou
esperar ser derrubado.
Nesse sentido, o governo de Khan terminou neste domingo, 10 de abril. As suas primeiras palavras após a sua deposição foram de acusação sobre uma conspiração estrangeira para derrubá-lo:
“Pakistan became an independent state in 1947, but today is the beginning of a renewed struggle for independence against an external conspiracy to change power. It is always the people of a country who protect and defend their sovereignty and democracy.” (fonte: https://www.news18.com/news/world/pakistan-crisis-live-updates-imran-khan-pti-shehbaz-sharif-no-confidence-motion-livenews-4959617.html)
É digno de nota que após a
independência do Paquistão, nenhum Primeiro-Ministro eleito democraticamente
conseguiu terminar o mandato de 5 anos, conforme podemos ver abaixo:
Os motivos oficiais alegados pela oposição seriam devido ao
fracasso do atual governo em recuperar a economia e de uma má condução da
política externa do país, bem como por não ter resolvido o problema da
corrupção. Convém, mencionar que essas eram algumas das bandeiras
eleitorais de Khan, quando disputou a eleição.
Outrossim, ele alega que trata-se de uma conspiração estadunidense com a oposição para derrubá-lo do poder, e com isso tenta mobilizar os seus apoiadores contra a sua queda, inclusive insuflando-os a realizarem protestos massivos pelo país e de criar uma opinião contra o mundo ocidental, representado pelos EUA e os seus aliados europeus.
É digno de nota que Khan, em seu mandato, aproximou bastante o país da China, e se afastou um pouco da influência do Ocidente, principalmente quando Biden assumiu o poder nos EUA. Não podemos esquecer que os EUA sempre tentaram estar presentes na vida política paquistanesa, notadamente durante o período da Guerra ao Terror, iniciada em 2001. Interessa pontuar que o poder militar paquistanês possui grande influência na estabilidade política desse país, e que, de acordo com vários analistas, Khan perdeu o apoio militar que estaria descontente com as suas decisões políticas, dentre elas a de se afastar de Washington. Ademais, conforme algumas fontes, os militares paquistaneses teriam preferência pelo equipamento militar estadunidense, em detrimento do chinês, que a princípio possui um maior custo de manutenção e menor qualidade.
Nesse quadro, está prevista uma nova eleição para
o cargo de Primeiro-Ministro na segunda-feira, dia 11 de abril.
- China: poderá perder um aliado importante contra a Índia, bem como poderá ter o seu projeto econômico da nova rota da seda impactado com um novo governo que seja alinhado aos EUA. Dessa forma, o China-Pakistan Economic Corridor - CPEC poderá adquirir uma menor prioridade pelo lado paquistanês. Outrossim, é importante falar que o Paquistão possui uma grande dívida financeira com o governo chinês, muito devido a esse projeto, onde cerca de 25% dos empréstimos estrangeiros têm origem na China. Portanto, em nossa visão, a China acompanha com apreensão essa troca de poder;
- EUA: não restam dúvidas de que a saída de Khan é vista como positiva para os estadunidenses, devido a relação de proximidade com a China, ainda mais quando o governo de Pequim é o principal adversário dos EUA, e que vem tentando aumentar a sua influência na região do Indo-Pacífico. O Blog acredita que pode ter ocorrido alguma influência política e militar dos EUA, com o intuito de atingir os seus objetivos geopolíticos, junto à oposição, e em especial aos militares, visando não interferirem na crise política em favor de Khan. Logo, acreditamos que os EUA tentarão usar a sua influência com o intuito de ajudar a eleger alguém que lhes sejam favoráveis;
- Afeganistão: o Paquistão
desempenha um papel importante junto ao Afeganistão, principalmente a partir do
surgimento do Talibã. Conforme o Blog vem analisando, tem ocorrido uma
aproximação da China e da Rússia com o atual governo afegão, e o Paquistão
sempre foi relevante como um ator facilitador na aproximação de países com o
Talibã, bem como teve importância fundamental para esse grupo tanto na ocupação
soviética, quanto na ocupação estadunidense.
- Rússia: o governo paquistanês na gestão Khan aproximou-se de Putin, ainda mais com
a saída dos EUA do Afeganistão, pois via que tanto a China quanto a Rússia poderiam ser
aliados estratégicos na segurança e na estabilidade nas regiões Central e Sul
da Ásia. Ademais, Khan tinha a intenção de construir um gasoduto com os russos.
Além disso, o Paquistão adquiriu armamento russo, bem como aproximou-se
militarmente de Moscou. No conflito da Rússia com a Ucrânia, o governo de Khan
fez várias críticas à União Europeia em relação a pressão sofrida para condenar
as ações russas. Assim, um novo governo mais alinhado aos ocidentais não será
um bom negócio para os russos, que estavam tendo o Paquistão como um
mercado sem a influência dos EUA.
Opinião: Existe uma grande possibilidade do novo governo paquistanês ser mais alinhado aos ocidentais, o que seria muito negativo para a china, bem como para a Rússia, ainda mais quando esta vem sofrendo duras sanções econômicas e ficando cada vez mais isolada internacionalmente.
Nesse diapasão, será fundamental observar o movimento dos militares paquistaneses ou seja, quem irão apoiar.

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