Os cinco maiores riscos para o Brasil em 2021 e suas vulnerabilidades

    Essa análise se baseou nos estudos realizados ao longo de 2020, bem como nas pesquisas de instituições sérias e confiáveis acerca dos riscos globais, como a Eurasia Group, Control Risks e International Crisis Group.

    Os analistas das organizações citadas acima divulgam os principais riscos que o cenário internacional enfrentará ao longo do ano e que são importantes serem examinados por todos, pois os países poderão ser afetados em maior e menor grau.

    Os cinco principais riscos ao Brasil em 2021:

·        Pandemia COVID-19: devido a falta de um planejamento governamental eficiente para o controle da pandemia e para a realização da vacinação, a probabilidade de termos o controle da doença em 2021 é pequena, ainda mais devido a elevada politização sobre o tema da vacina. Dessa forma, acreditamos que somente em 2022 é que teremos a COVID-19 sob controle. Nesse sentido, a economia do nosso país continuará sendo afetada fortemente (não é previsto ter ajuda emergencial neste ano), bem como a saúde da população, havendo também o aumento da desigualdade social. Sendo assim, somente por meio de uma vacinação urgente e em massa, de campanhas governamentais sobre a importância da vacinação e da continuidade dos procedimentos de higiene, distanciamento e do uso da máscara é que poderemos criar as condições para controlarmos a pandemia, com o intuito de melhorarmos a economia e a segurança sanitária da nossa sociedade. É esperado um grande desgaste político do atual governo, devido à forma com que lida com esse sério problema.

 

·      Meio ambiente: a política ambiental brasileira tem sido marcada por questionamentos nacionais e internacionais, onde em 2020 os índices de desmatamento do Brasil foram bastante elevados, notadamente na região amazônica. Tais questionamentos foram potencializados pelos discursos do Ministro do Meio Ambiente e do Presidente da República, e que começam a impactar na exportação de nossos produtos, demandando um trabalho hercúleo da Ministra da Agricultura e das principais empresas exportadoras do agronegócio brasileiro. Outro fato é que o possível acordo entre o Mercosul e a União Europeia corre um sério risco de não seguir adiante por causa disso. Porém, o maior desafio será o governo de Joe Biden que tem como um dos seus pilares de sua política o meio ambiente, e que durante a sua campanha presidencial realizou pronunciamentos sobre possíveis sanções econômicas contra os governos que possuam políticas ambientais equivocadas, onde citou claramente o Brasil. Nesse sentido, é esperada em 2021 uma forte pressão política e econômica contra o nosso país, liderada pelos EUA, se continuarmos com a atual política ambiental. Dessa forma, torna-se necessário rever a nossa política ambiental, visando evitar problemas geopolíticos.

 

·      Disputa pela tecnologia 5G: neste ano está prevista a licitação pela implementação da tecnologia 5G no Brasil. Desta forma, é previsto que ocorra uma pressão política dos governos estadunidense e, chinês sobre o Brasil, pois estamos no meio de uma disputa hegemônica entre essas potências. Nesse cenário, uma escolha feita fora dos requisitos técnicos poderá ter como consequência um distanciamento dos EUA (atualmente o principal aliado) ou da China (principal parceiro econômico), onde qualquer uma das situações impactará fortemente no nosso país. Dessa forma, é uma questão delicada que carece ser lidada com muita prudência e sabedoria.

 

·        Defesa Antiaérea: as forças armadas brasileiras não possuem um sistema de defesa antiaérea terrestre contra ameaças a média e alta alturas, bem como contra médio e longo alcances, possuindo armamentos somente contra alvos de baixa altura e curto alcance, como os mísseis antiaéreos portáteis RBS 70, MAS Mistral e o IGLA S, que possibilitam uma defesa de cerca de 7 quilômetros de onde se pretende defender, bem como canhões antiaéreos.

   Além disso, as guerras na Líbia, Síria e Iêmen nos mostram uma mudança na forma de travar conflitos para atingir objetivos geopolíticos, onde o uso de mercenários, drones, desinformação (principalmente devido ao aumento do protagonismo das mídias sociais), guerra híbrida, guerra por procuração (proxy war), guerra cibernética, sistemas de antiacess/área denial (A2/D2), e os mísseis de cruzeiro têm dominado os cenários táticos, e com isso a guerra clássica tem ficado um pouco estagnada, apesar de continuar importante para uma escala maior de conflito, e que faz-se mister que os governos invistam em tecnologias de defesa, visando fazer frente as ameaças citadas acima, e dentro desse contexto está o nosso país, pois comente as forças armadas bem preparadas, atualizadas e treinadas é que poderemos propiciar a segurança externa necessária para garantir as aspirações do Brasil no cenário internacional, dentro das suas capacidades, bem como atingir objetivos nacionais com paz e desenvolvimento.

   Convém mencionar que a Venezuela possui o sistema russo S-300 que permite engajar com alvos aéreos a até 200 quilômetros, provendo uma boa defesa antiaérea de seu território, e isso pôde ser observado durante a problemática envolvendo o Brasil, em Roraima, junto à fronteira com aquele país, em que causou certa apreensão na Força Aérea Brasileira.

   O tema Atlântico Sul tem sido objeto de preocupação de nossas Forças, e destaco a iniciativa do Exército Brasileiro no desenvolvimento de radares antiaéreos nacionais, como o SABER M60 e o SABER M200, que podem detectar alvos até 60KM e 200KM, respectivamente.

   Dessa forma, isso apresenta uma séria vulnerabilidade para a defesa de nosso país, ainda mais no novo ambiente de conflito em que se empregam intensivamente drones para vigilância e ataque por meio de bombas inteligentes e mísseis ar-terra. É fundamental termos uma defesa antiaérea que consiga defender as infraestruturas críticas que ficam até 200 quilômetros do nosso litoral, bem como as nossas instalações militares, como as nossas bases navais e portos, contra ataques de mísseis e aeronaves, tripuladas e não tripuladas, provenientes de meios navais hostis.

 

·      Inteligência e Contrainteligência: a atividade de inteligência é primordial para a segurança de um Estado e de sua sociedade. Essa atividade possui dois ramos com as suas definições, conforme entendimento da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN.

 

Ø   Inteligência: A inteligência compreende ações de obtenção de dados associadas à análise para sua compreensão. A análise transforma os dados em cenário compreensível para o entendimento do passado, do presente e para a perspectiva de como tende a se configurar o futuro. A inteligência trata fundamentalmente da produção de conhecimentos com objetivo especifico de auxiliar o usuário a tomar decisões de maneira mais fundamentada. O conhecimento de Inteligência é o produto final desenvolvido pela ABIN e difundido à Presidência da República, aos órgãos do Sistema Brasileiro de Inteligência – SISBIN e a instituições com competência para decidir sobre assuntos específicos. A Inteligência faz uso de instrumentos de obtenção e de análise de dados disponíveis nas diversas áreas do conhecimento. Além disso, realiza ações de busca de dados com uso de técnicas especializadas, desenvolvidas por meio de treinamento especifico. Todas as ações especializadas são conduzidas com irrestrita observância às leis e aos princípios éticos que regem o Estado Brasileiro. A Inteligência tem ainda o desafio de tratar os dados obtidos, atribuir credibilidade e obter um significado de seu conjunto. Esse processo requer treinamento e utilização de técnicas de diversas áreas do conhecimento. No processo de análise, os dados têm sua credibilidade avaliada e são interpretados a partir de metodologia especifica de produção de conhecimentos de inteligência. Outras metodologias de análise que possam apoiar a produção de conhecimentos são também empregadas. A análise permite a compreensão dos fenômenos e a elaboração de cenários prospectivos que orientam a tomada de decisões. Como resultado de todo esse processo, a Inteligência oferece às autoridades nacionais conhecimentos com credibilidade, completude e objetividade.

Ø   Contrainteligência: a Contrainteligência tem como atribuições a produção de conhecimentos e a realização de ações voltadas para a proteção de dados, conhecimentos, infraestruturas criticas – comunicações, transportes, tecnologias de informação – e outros ativos sensíveis e sigilosos de interesse do Estado e da sociedade. O trabalho desenvolvido pela Contrainteligência tem foco na defesa contra ameaças como a espionagem, a sabotagem, o vazamento de informações e o terrorismo. Podem ser patrocinadas por instituições, grupos ou governos estrangeiros. Ela contribui para a salvaguarda do patrimônio nacional sob a responsabilidade de instituições das mais diversas áreas, consideradas de interesse estratégico para a segurança e para o desenvolvimento nacional. A Contrainteligência desenvolve ações voltadas para a prevenção, detecção, obstrução e a neutralização de ameaças aos interesses nacionais. Na área de prevenção, a Contrainteligência atua na sensibilização, orientação e capacitação de instituições estratégicas nacionais para a proteção de ativos de interesse do Estado e da sociedade, promovendo a adoção de comportamentos e medidas de segurança. Atua também na avaliação dos riscos de segurança dessas instituições para alertá-las para o perigo a que estão expostas. Na área de detecção, obstrução e neutralização, a Contrainteligência atua no desenvolvimento de ações, inclusive especializadas, fazendo uso de recursos humanos e tecnológicos, com o objetivo de frustrar possíveis ameaças aos interesses nacionais.

            Com isso, faz-se premente que tenhamos uma Atividade de Inteligência moderna, com pessoal qualificado e em número suficiente para atender os seus ramos. A Atividade de Inteligência do Brasil ainda está em fase de amadurecimento, em todos os níveis, e precisa ser encarada como uma inteligência estratégica e de Estado por nossas instituições, para tanto o investimento no setor é fundamental e urgente. Ademais, faz-se necessária a criação de uma mentalidade em nossa sociedade sobre a importância da inteligência. Somente assim é que poderemos mitigar essa vulnerabilidade, termos uma atividade de inteligência eficiente e eficaz que proporcione ao nosso país um futuro promissor com menos “neutralizações”, e devemos mudar a sua fama que, infelizmente, é de “bisbilhotagem” para uma Atividade de Inteligência estratégica e de Estado, onde a nossa sociedade possa sentir orgulho.

 

·      Segurança e Defesa Cibernética: o nosso país é um dos que mais recebe ataques cibernéticos, a cada dia o mundo tem ficado mais conectado a redes de computadores, seja a mundial como a internet, ou interna chamada de intranet. O desafio é prover uma segurança adequada que permita salvaguardar as informações, recursos, privacidade e a defesa dos governos, quanto de seus cidadãos.

   Recentemente dados da EMBRAER foram acessados e roubados por um hacker, não se sabendo ainda os possíveis danos a empresa, como segredos industriais etc. Outro incidente relevante foi uma tentativa de ataque ao Tribunal Superior Eleitoral. Além disso, as nossas Forças Armadas recebem diariamente vários ataques cibernéticos.


   Estamos bastante vulneráveis nesse ambiente, em que pese ser uma prioridade da nossa Defesa Nacional. Além disso, é esperado em 2021 um aumento do número de ataques cibernéticos ao Brasil, devido ao incremento das transações eletrônicas, falta de mentalidade da nossa população sobre a segurança cibernética, fragilidade dos sistemas corporativos governamentais e das nossas empresas, e há a possibilidade de que nos tornemos um alvo de algum Estado, devido a disputa pela tecnologia 5G, e aos recentes discursos sobre dispormos de armamento nuclear. Nesse diapasão torna-se urgente realizar investimentos no setor e implementarmos uma campanha para o incremento da mentalidade sobre o assunto.

 

·       Política externa: o atual governo perdeu um dos seus principais aliados no exterior. Com isso, em 2021 deve aumentar o isolamento político do país no mundo, em virtude da alta probabilidade de que o multilateralismo volte a ganhar destaque no cenário internacional, do aumento da importância da emergência climática no mundo e da tendência do enfraquecimento dos movimentos ultra-conservadores e do negacionismo, com a saída de Donald Trump do poder, onde a nossa política externa apresenta sérias fragilidades em todos esses temas. Vários analistas já tratam o nosso país pejorativamente como um “pária internacional”. Dessa forma, caso não haja uma mudança em nossa política externa é muito provável que esse risco aconteça, o que dificultará muito o cumprimento de nosso objetivos geopolíticos.

 

2021 não será um ano fácil, mas tem a possibilidade ser muito melhor que 2020, em que pese os riscos mencionados acima. Para tanto, dependerá muito do governo realizar algumas correções de rumo, visando evitar os obstáculos que estão no visual e aprender com os equívocos do passado. Além disso, a nossa sociedade pode dar a sua contribuição no que lhe couber.


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