O futuro problemático do Chile - Parte II

    No dia 19 de dezembro o Chile elegeu o seu novo presidente, em que o esquerdista Gabriel Boric venceu o pleito numa disputa bastante polarizada, o que vem ocorrendo nos últimos anos em quase todo o mundo, e em especial na América do Sul.

   Dessa forma, a América do Sul vai ganhando uma tintura mais vermelha, como no passado. Tal tendência havia sido analisada no artigo "O futuro problemático do Chile: bem-estar social x desenvolvimento econômico?", acessível em https://artigosgeopoliticos.blogspot.com/2021/05/o-futuro-problematico-do-chile-bem.html em que dissemos que as recentes eleições para os mandatários de países sul americanos sinalizavam uma tendência do retorno dos partidos de esquerda no protagonismo do nosso continente, e que o resultado da eleição presidencial peruana ratificou essa percepção do artigo, com a acirrada disputa entre os candidatos de extrema direita e de extrema esquerda.

   O futuro presidente chileno, que foi um líder estudantil, entra para a história desse país como o mais novo eleito para o cargo, 35 anos, e com isso por ser da geração Millenial possui uma visão de mundo bem característica, como a grande preocupação com a emergência climática, direitos humanos e com as causas sociais. Além disso, não viveu o período da Guerra Fria, e com isso possui uma visão ideológica um pouco distinta dos antigos líderes de esquerda. Em nossa visão, Boric se assemelha aos socialistas europeus, e não aos líderes socialistas latino-americano que estão no poder e que possuem influência política no atual cenário latino-americano.

   Nesse contexto, é esperado que haja grandes mudanças na economia liberal chilena, e que pode ser entendido pelo apoio que ele dá a recém Assembléia Constituinte, que mudará a constituição chilena, bem como em seu discurso pós vitória eleitoral, em que disse que irá ampliar os direitos sociais.

   Em que pese ter um grande apoio da população, devido a ter sido o presidente com o maior número de votos da história republicana chilena, acreditamos que ele terá dificuldades no congresso chileno, pois a sua aliança partidária "Apruebo Dignidad", que reúne a Frente Ampla e o Partido Comunista, possui poucos assentos no congresso. Ademais, o Chile vem atravessando um período turbulento tanto politicamente, quanto economicamente, que serão grandes desafios à Gabriel Boric.

   Dessa forma, vemos a América do Sul como um "caldeirão"social, em que a esquerda tem a grande possibilidade de voltar a ser protagonista no continente. Nesse sentido, em nosso entendimento o grande desafio é como conciliar um Estado protetor e progressista com um alto desenvolvimento econômico e social no nosso continente, pois a corrupção é um câncer latente na América do Sul. É digno de nota que são poucos os países no mundo, que podemos lembrar, que obtiveram sucesso com este modelo. Nesse cenário, no Chile o resultado da eleição para a Assembléia Constituinte ganhou uma marca histórica com os independentes e os partidos de extrema esquerda obtendo a maioria das cadeiras, e com isso ganhando a oportunidade de transformar a constituição chilena, encerrando de uma vez por todas a era Pinochet, além de tirar o protagonismo dos partidos de direita. Dessa forma, o Chile será um grande laboratório e que deverá ser acompanhado com atenção, pois poderá ser um Estado progressista de bem-estar social, com o desafio de manter o atual IDH do país, e que, se não obtiver êxito, poderá ser uma experiência fracassada se assemelhando ao que vem ocorrendo na Venezuela ou Argentina, onde os problemas sociais foram acentuados.

   Destarte, é importante acompanhar como será o relacionamento do futuro governo com o setor de mineração chilena, pois Gabriel Boric pretende realizar uma grande mudança nesse setor implementando uma mineração sustentável. Convém mencionar que o cobre chileno é responsável por cerca de um terço da produção mundial (o Chile é o maior produtor de cobre no mundo), e o carro chefe da sua economia.

   Tal afirmação encontra respaldo na análise de Wagner Iglecias, professor da EACH-USP:

"[...] Boric fala em aumentar impostos para as empresas privadas de mineração e tem uma agenda verde, de introdução de novas tecnologias na mineração para reduzir o impacto ambiental”, disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/business/eleicao-no-chile-favoritos-tem-propostas-opostas-para-cobre-maior-produto-do-pais/


Opinião: o futuro do Chile é totalmente incerto, e que o país que se tornou um caso de sucesso na América do Sul poderá mergulhar num caos interno. Porém, caso o futuro governo consiga realizar uma união nacional em torno do combate as mazelas causadoras da desigualdade social, o país continuará sendo um modelo a ser seguido no nosso entorno estratégico.

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