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Mostrando postagens de junho, 2020

Os desafios da OTAN: entre a efetiva dissuasão e o seu fim

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     No início de junho de 2020, um oficial das Forças Armadas americanas revelou que o presidente Donald Trump ordenou, em reunião no Pentágono, a retirada de 9.500 militares americanos da Alemanha, sendo esses realocados de volta aos Estados Unidos, à Polônia e a outras nações. Sem uma declaração oficial, a ministra da Defesa da Alemanha evita especulações, porém diversos analistas e políticos têm levantado pontos sobre as possíveis consequências da ação, incluindo a diminuição da capacidade de defesa americana em relação à Rússia, África e Ásia, além de maior deterioração das relações entre os países dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte.     Dentre as análises, questionamentos sobre a localização e o futuro das armas nucleares dos EUA na Europa reacendem discussões sobre dissuasão e relações nuclear-militares na região. Além dos três países da OTAN que possuem armamentos nucleares (EUA, França e Reino Unido), vale lembrar que, em 2019, u...

O futuro da economia japonesa pós COVID-19: reflexões geopolíticas

   Enquanto a pandemia da COVID-19 afeta os arranjos sociais e políticos do governo, setores públicos e privados do Japão começam a se planejar, e projetar o futuro da economia do país nos próximos anos. A base de tais discussões tem sido uma importante reflexão sobre o seu principal parceiro comercial: a China. Com uma balança comercial deficitária, na ordem de US$ 21 bilhões, e complexas questões geopolíticas, a pandemia tem reforçado o quão perigoso tem sido esse “desencontro” entre os objetivos da política externa japonesa e a sua dependência do mercado e dos bens chineses.    É importante estabelecer que a economia e os setores industriais japoneses, como um todo, têm apresentado ao longo das décadas dois problemas estruturais importantes: em relação ao câmbio, a moeda japonesa tem se mostrado vulnerável a flutuações do mercado externo, principalmente no que concerne investidores. Antes da crise causada pela COVID-19, uma guerra comercial entre China e EUA mos...

O futuro dos investimentos americanos em defesa

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   Em 27 de abril de 2020, o Stockholm Internacional Peace Research Institute (SIPRI) divulgou a versão mais recente da sua analise anual dos gastos militares mundiais. A nova versão apresenta os dados de 2019 e demonstra que os gastos em defesa alcançaram US$ 1,9 trilhão, representando um aumento de 3,6% em relação a 2018. O principal país investidor são os Estados Unidos da América, com o total de US$ 732 bilhões, seguido pela China com US$ 261 bilhões. Assim, é pertinente compreender o papel dos EUA no cenário internacional e como a atual pandemia de COVID-19 pode afetar os investimentos globais em defesa.    Entre 2011 e 2014, devido à crise econômica e financeira mundial, os gastos militares foram reduzidos, contudo, desde 2015, percebe-se um aumento global relevante de investimento em defesa. Em relação aos EUA, 2019 representou o segundo ano de crescimento de gastos, sendo 5,3% maior que os investimentos em 2018, uma mudança expressiva após sete anos (2010...

Mar do Caribe: palco de tensões entre EUA e Venezuela

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    Em 02 de junho de 2020, quatro companhias de transporte marítimo foram sancionadas pelo Departamento de Tesouro dos Estados Unidos, após um relatório governamental apontar que estas estavam envolvidas no comércio de petrolíferos da Venezuela. Em maio, pelo menos cinco navios que seguiam em direção à costa venezuelana alteraram seus rumos depois das ameaças. O Conselho de Segurança dos EUA afirmou que tanto petroleiros, como companhias marítimas e fornecedores associados poderiam ser sancionados. Segundo a agência Reuters , dezenas de embarcações sob análise seriam anunciadas em breve. Conforme relatos da mídia, empresas petrolíferas chinesas estariam ponderando o afretamento de navios que tenham visitado a Venezuela. Já no Brasil, a Petrobras definiu que não contrataria embarcações que tenham operado no país caribenho nos últimos 12 meses.     As medidas do governo Trump são parte do contexto de reforço de laços entre dois de seus maiores adversários,...

Instabilidade econômica impõe desafio ainda maior no Golfo da Guiné

     No dia 26 de maio de 2020, nove marinheiros regressaram à Geórgia após terem sido feitos reféns durante 21 dias. O sequestro ocorreu em um navio de bandeira panamenha, no dia 30 de abril, na costa nigeriana e outro membro da tripulação, que não teve sua nacionalidade especificada, também foi feito refém junto aos nove georgianos. O escoamento da produção de petróleo da costa ocidental africana através de grandes embarcações pelo Golfo da Guiné tem sofrido interceptações sistemáticas por criminosos.     O trecho é a principal rota comercial que interliga os Estados africanos que se destacam no setor energético, como Angola e Nigéria, ao continente europeu, China e Índia. Observa-se que, em vez de somente se aterem ao roubo da carga, os criminosos têm optado pelo seqüestro da tripulação, a fim de solicitar o resgate. O índice destes casos no ano de 2019 cresceu mais que o dobro da média dos quatro registros de anos anteriores. A Central 24h de Not...

Grécia e Turquia em iminência de confronto bélico no Mediterrâneo

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    No início de junho, o ministro de Defesa grego, Nikos Panagiotopoulos, anunciou que a Grécia estava pronta para um confronto bélico com a Turquia, caso se esgotassem as tentativas de resolução diplomáticas sobre os conflitos recentes com o país. A Turquia vem adotando medidas assertivas para a exploração de gás na região, após ter sido ignorada por países vizinhos, como Grécia, Chipre e Israel, que firmaram um acordo, no início de janeiro de 2020, para a construção do gasoduto marítimo EastMed , que levará gás até a Itália, diversificando as fontes deste combustível na Europa. A previsão de conclusão do gasoduto é 2025.     A Turquia não é signatária da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), de 1982, e protesta por novas delimitações na região, pelas quais seus interesses sejam atendidos. A apenas 283 milhas do Chipre, o país luta pelo direito de explorar gás no entorno da ilha, considerando que a República Turca do Chipre do Nort...

Escalada militar no Mar Negro

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     Em 2020, apesar da pandemia de COVID-19, a Esquadra do Mar Negro russa já realizou uma série de exercícios navais de antiacesso e negação de área (A2/AD, sigla em inglês), incluindo exercícios antissubmarino e simulação de disparos de artilharia contra alvos navais, costeiros e aéreos. A região tem se tornado foco de tensões entre Moscou e OTAN, que critica a crescente presença militar russa desde 2014. Apesar da preocupação com esse cenário, os demais países da OTAN não podem manter navios de grande porte por longos períodos devido à Convenção de Montreux, de 1936, que limita a presença de navios militares acima de 15 mil toneladas por países sem costa para o Mar Negro, além de determinar um prazo máximo de 21 dias de permanência na região.     Diante deste cenário, pela primeira vez desde a Segunda Guerra, a Romênia classificou abertamente a Rússia como uma ameaça em sua Estratégia Nacional de Defesa para o período de 2020 a 2024, enviada ao P...

Chips de alta tecnologia e moeda virtual: o novo cenário na guerra tecnológica entre China e EUA

    No dia 15 de maio de 2020, os Estados Unidos voltaram a atacar a multinacional chinesa Huawei , ao privar a empresa de uma de suas principais fornecedoras. Os EUA emitiram um decreto estabelecendo que empresas que utilizam equipamentos norte-americanos não poderiam vender seus produtos para a Huawei . Um dos principais alvos deste decreto foi a empresa taiwanesa TSMC, que fabrica chips de alta tecnologia para a Huawei e para a Apple .     Concomitantemente à emissão do decreto, Pequim anunciou que investiria US$ 2,2 bilhões em sua maior empresa doméstica deste setor, a SMIC. Entretanto, a SMIC ainda não possui a tecnologia e os equipamentos necessários para produzir os chips utilizados pela Huawei . A empresa utilizará, por ora, os chips que vem armazenando há um ano, buscando antecipar restrições desta natureza.     O Partido Comunista Chinês continua desenvolvendo a sua visão de que a inovação tecnológica deve ser o principal foco ...

China, Estados Unidos e Rússia : Open Skies e o regime de não-proliferação

    No dia 21 de maio, o presidente americano Donald Trump anunciou que iria sair do Tratado Open Skies . Este foi assinado em 1992 como um protocolo com relação a voos de vigilância aérea entre os territórios dos 35 países signatários. Segundo a Casa Branca, a decisão da retirada desse acordo ocorreu porque o governo russo teria violado os termos acordados ao não permitir sobrevoos em cidades onde se especula haver ogivas nucleares.     Esse não foi o primeiro acordo relacionado à temática militar denunciado pelo governo dos EUA. Em 2019, o governo americano se retirou do Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty (INF Treaty), acordo que limitava o estabelecimento de mísseis de médio e curto alcance pelos Estados Unidos e a então União Soviética. Na época, os EUA argumentavam que o desenvolvimento do míssil 9M729 (na numeração da OTAN, SSC-8 ) estaria violando os termos do tratado. Segundo David Sanger, do New York Times , a saída americana do Open Skie...

A militarização da segurança pública mexicana

    O Exército mexicano terá o controle da segurança pública do país até 2024, de acordo com a lei adotada pelo presidente Andrés Manuel López Obrador, que surpreendeu. Isso porque a medida entra em vigor um ano após a criação da Guarda Nacional – conjunto de tropas policiais militares que visa garantir a segurança e o combate ao crime organizado, mas que atua, majoritariamente, na fronteira controlando a imigração ilegal. Ademais, a aprovação da lei se deu em plena pandemia de COVID-19, momento em que o México decretou o colapso de seu sistema de saúde e, atualmente, registra mais de 142 mil casos confirmados. Contudo, fica claro o empenho de López Obrador em definir meios para conter os altos índices de violência e criminalidade do país.     Essa estratégia se assimila à adotada pelo ex-presidente mexicano, Felipe Calderón, que, há 14 anos, centralizou a segurança pública e o combate ao narcotráfico sobre o domínio do Exército. Desde 2019, López Obrador...

A Operação Gedeón e a crescente fragilidade da articulação que sustenta o governo de Nicolás Maduro

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   Entre 03 e 04 de maio de 2020, forças de segurança venezuelanas abateram 8 homens e detiveram outros 21 no litoral localizado a 30 km de Caracas por suposto envolvimento na chamada Operação Gedéon (OG). O grupo, formado por dois ex-integrantes das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos e desertores da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), foi acusado pelo governo venezuelano de tentativa de incursão armada com objetivo de capturar e extraditar Nicolás Maduro. Posteriormente, o proprietário da empresa de segurança privada, Jordan Goudreau, e um capitão desertor da FANB, Javier Nieto Quintero, reivindicaram responsabilidade pela OG.    A operação teria contado com 60 militares venezuelanos desertores, comandados pelo general desertor da FANB, Clíver Alcalá, e com suposto apoio dos governos dos Estados Unidos e Colômbia. Ambos negaram envolvimento. Não há indícios de participação dos EUA na OG. Entretanto, em 2019, Goudreau apresentou um plano prelimi...

A disputa geopolítica da Ucrânia em tempos de COVID-19

   No dia 14 de maio, o Grupo de Contato Trilateral sobre a Ucrânia se reuniu por videoconferência. Composto por representantes de Ucrânia, da Rússia e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, o grupo foi criado em 2014 a fim de facilitar o diálogo e a resolução das disputas no Leste e no Sul do país. Nessa reunião, a delegação ucraniana foi expandida, sendo liderada pelo vice primeiro-ministro e ministro da Reintegração dos Territórios Temporariamente Ocupados, Oleksiy Reznikov. Na reunião trilateral, discutiu-se a troca de prisioneiros, bem como a criação de checkpoints e a delegação ucraniana manteve a posição de realizar eleições no Donbass somente após retomada do controle fronteiriço das províncias do Leste do país, recusando também a possibilidade de consolidar os status especiais de Donetsk e Luhansk na Constituição ucraniana.    No dia seguinte, o Parlamento Europeu aprovou ajuda de US$ 1,2 bilhão para a Ucrânia para auxiliar a mitigar os e...

França: operação Resilience face à COVID-19

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A operação Resilience , lançada pelo presidente Emmanuel Macron no dia 25 de março, visa coordenar toda atividade militar no combate à COVID-19 em território francês. Esta operação insere-se na declaração do presidente de que a França está em guerra contra a COVID-19. A ênfase dada ao termo “guerra” evidencia a importância das Forças Armadas neste combate, atuando na evacuação aérea de pacientes, aliviando estruturas hospitalares, fornecendo materiais sanitários e garantindo suporte aos territórios ultramarinos. Vale ressaltar que a França possui a segunda maior zona econômica exclusiva do mundo e, portanto, o papel da Marine Nationale é fundamental ao Estado francês não só como força de dissuasão, mas também para garantir a autonomia e a assistência a todo seu território e população. Os três porta-helicópteros anfíbios da Marinha, com capacidade para 69 leitos, foram mobilizados nesta operação. O navio Tonnerre foi enviado para evacuar pacientes da Ilha de Córseg...