O futuro da economia japonesa pós COVID-19: reflexões geopolíticas

   Enquanto a pandemia da COVID-19 afeta os arranjos sociais e políticos do governo, setores públicos e privados do Japão começam a se planejar, e projetar o futuro da economia do país nos próximos anos. A base de tais discussões tem sido uma importante reflexão sobre o seu principal parceiro comercial: a China. Com uma balança comercial deficitária, na ordem de US$ 21 bilhões, e complexas questões geopolíticas, a pandemia tem reforçado o quão perigoso tem sido esse “desencontro” entre os objetivos da política externa japonesa e a sua dependência do mercado e dos bens chineses.

   É importante estabelecer que a economia e os setores industriais japoneses, como um todo, têm apresentado ao longo das décadas dois problemas estruturais importantes: em relação ao câmbio, a moeda japonesa tem se mostrado vulnerável a flutuações do mercado externo, principalmente no que concerne investidores. Antes da crise causada pela COVID-19, uma guerra comercial entre China e EUA mostrou um potencial cenário desolador ao país. O segundo problema envolve a questão da dependência supracitada.

   Seja no setor energético ou industrial, o Japão tem se mostrado ”refém” de determinados parceiros/países por questões de mercado e de acesso a bens estratégicos. Enquanto as disputas territoriais, e o próprio livro branco de defesa japonês, apontam a China como um dos principais rivais no Leste Asiático, no campo comercial o tamanho do mercado chinês e sua importância para as empresas japonesas demonstram o quão vulnerável o Japão se encontra frente a um parceiro comercial é um grande rival. Enquanto muito se discute a ameaça militar, às vezes esquece-se da capacidade que a China tem de usar ferramentas econômicas para atingir seus objetivos geopolíticos relacionados ao Japão, isto é, o papel da geoeconomia na relação entre ambos.

   Neste cenário, não é de se estranhar que líderes empresariais e políticos pensem numa conjuntura, pós-pandemia, em que a retração econômica seja acompanhada por uma reconfiguração dos laços com a China. A pandemia trouxe à tona a necessidade de autossuficiência da indústria e comércio, frente ao fim do abastecimento de insumos estratégicos à subsistência da nação. Enquanto a conjuntura atual veio em decorrência de uma crise sanitária, como seria o quadro frente a um cenário bélico ou de ruptura de relações governamentais e políticas?


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