Os desafios da OTAN: entre a efetiva dissuasão e o seu fim
No início de junho de 2020, um oficial das Forças Armadas americanas revelou que o presidente Donald Trump ordenou, em reunião no Pentágono, a retirada de 9.500 militares americanos da Alemanha, sendo esses realocados de volta aos Estados Unidos, à Polônia e a outras nações. Sem uma declaração oficial, a ministra da Defesa da Alemanha evita especulações, porém diversos analistas e políticos têm levantado pontos sobre as possíveis consequências da ação, incluindo a diminuição da capacidade de defesa americana em relação à Rússia, África e Ásia, além de maior deterioração das relações entre os países dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Dentre as
análises, questionamentos sobre a localização e o futuro das armas nucleares
dos EUA na Europa reacendem discussões sobre dissuasão e relações
nuclear-militares na região. Além dos três países da OTAN que possuem
armamentos nucleares (EUA, França e Reino Unido), vale lembrar que, em 2019, um
documento originalmente disponibilizado para o Comitê de Defesa e Segurança da
Assembleia Geral da OTAN, subsequentemente deletado, mas publicado por um
jornal belga, divulgou a localização de bombas nucleares B61 americanas em seis
bases europeias, dentre elas Buchel,
na Alemanha.
Apesar de, em
um primeiro momento, o plano manter uma quantidade significativa de tropas na
Alemanha - 25.000 militares após a retirada -, no que se refere à ordem de
Trump, alguns políticos alemães esperam que as bombas também sejam retiradas do
território. A decisão, porém, poderia enfraquecer o próprio acordo de
compartilhamento nuclear como um dos pilares da estratégia da OTAN, posicionamento
compartilhado pelo Secretário Geral da organização, Jens Stoltenberg, já em
artigo publicado em maio de 2020, no qual reafirma a importância da Alemanha no
apoio e comprometimento com tal acordo.
Considerando
que a Alemanha abriga o maior contingente de tropas norte-americanas no
exterior, além de localização central no continente, o país é ator de
significativa importância do tabuleiro de poder estadunidense no contexto das
relações político-militares. Se levada a cabo, a presente ordem poderia, assim,
impactar na própria sobrevivência da OTAN, uma vez que a deterioração no
relacionamento entre os dois países pode tornar as discussões dentro da
organização insustentáveis, levando a seu fim definitivo, como o presidente
francês, Emmanuel Macron, já teria afirmado em 2019.

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